Parte do Manifesto pela adoção de uma reforma ortográfica

Breve histórico da ortografia da língua portuguesa


Até durante a Idade Média, quase todo material escrito produzido na Europa Ocidental era em latim. Entretanto, as populações locais tinham suas línguas próprias, em alguns lugares baseada no latim vulgar, porém cada vez mais distante dele.

Com o tempo, as línguas locais ganharam importância. Cada estado adotava sua "língua nacional". Isso também aconteceu com o português. Surgiu então a necessidade de uma modalidade escrita da língua, que já era usada muito antes de sua "oficialização", algumas vezes textos em latim com algumas palavras portuguesas incrustadas.

Devido à herança cultural latina, a escrita de vários idiomas europeus se baseia no alfabeto latino. Isso gerou algumas dificuldades, pois as fonologias dos "novos idiomas" divergiam em diversos pontos a do latim. Essas dificuldades são em parte resolvidas através de adaptações específicas. No caso do português, exemplos de adaptações são o til (~) e os dígrafos lh e nh.

Entretanto, não havia uma normalização, e cada pessoa escrevia como achava melhor, sendo uma mesma palavra escrita de jeitos diferente até no mesmo texto. Por exemplo, a palavra bem também podia ser escrita ben ou b. Esse período, chamado fonético, pois se baseava principalmente na pronúncia, durou até meados do século XVI.

Posteriormente, no período renascentista, os eruditos preferiram adotar uma ortografia que se aproximasse ao máximo possível da latina e/ou da grega, adicionando coisas estranhas à escrita anterior, tais como letras dobradas desnecessárias, y no lugar de i, ch, ph, rh e th com som de k, f, r, e t, respectivamente. Contudo, algumas vezes "enfeitavam" a escrita injustificadamente, como em "pecego" (atual pêssego, do latim persicu) ou lyrio (atual lírio, do latim lilium). Pelo fato dessa grafia não ser exatamente baseada na etimologia, o período ortográfico é denominado pseudo-etimológico.

Mas a ortografia pseudo-etimológica não deixou de ser contestada. Muitas foram as propostas de se simplificar a ortografia, mas, como no período fonético, ainda não havia uma normalização. Assim, cada autor também escrevia do seu próprio modo: alguns, com a ortografia pseudo-etimológica; outros, com sua "ortografia simplificada", porém, sem uma padronização consistente.

Esse problema só começou a ser resolvido em 1904, através de uma proposta de Gonçalves Viana. Seu sistema ortográfico foi adotado, quase que integralmente, pelo governo português de modo oficial em 1911, e com umas poucas modificações, permanece até hoje. Por isso, dizemos que estamos num período simplificado de nossa ortografia.

Se comparada a ortografia do período pseudo-etimológico, a ortografia atual aproximou-se relevantemente para uma ortografia fonética. Mas ainda contém algumas incongruências de base etimológica. Esse manifesto contém uma proposta para diminuir sensivelmente essas incongruências, que estão listadas a seguir.

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